Ninguém sabia o ano em que João havia entrado para a faculdade de Medicina e nem porque ele continuava frequentando as aulas de Anatomia, do primeiro ano. Bonachão, alegre, amigo de todos. Ia para as aulas sem livros ou cadernos. Mas, parecia ser um dos mais interessados, fazendo perguntas e orientando os calouros. Dizia gravar tudo na memória. Nas provas, não aparecia, mas sempre estava na fila para ver, no quadro onde ficavam expostas as notas das provas, para comentar as notas dos outros. Depois sumia por dois meses e retornava contando suas aventuras. Salvou a vida de duas pessoas desidratadas no Caminho de Santiago de Compostela. Trabalhou dois meses no Médico sem Fronteiras na Zâmbia, e até bateu uma bola com o Falcão, no Roma, quando visitou o papa. Um dia, contou que estava em um ônibus cheio de passageiros, que desceu uma ribanceira próximo a Gramado. Disse que estava no banheiro quando o ônibus capotou. Lá embaixo, mesmo ferido, foi o primeiro a dar os primeiros socorros para as vítimas, enquanto aguardava o ônibus ser descoberto. (O acidente ocorreu mesmo!). João sumiu por três anos. Quando estava próximo da minha formatura o encontrei na faculdade. Perguntei o porquê do sumiço por tanto tempo. Havia conseguido um emprego de cobaia em um laboratório em Manaus, onde estavam testando uma nova vacina de febre amarela. Este era o João, sempre feliz e colaborando com a ciência. Nunca se formou e nem largou as aulas de Anatomia. Dizem que está no mesmo vai e vêm, morando com uma tribo no interior de Mato Grosso, salvando vidas e praticando ciência.