Ovos que não se quebram: Ritos de Páscoa e o que não se quebra no tempo
ACADEMIA LUVERDENSE DE LETRAS


Há coisas que não passam pela palavra e, por isso mesmo, permanecem, como se encontrassem no silêncio uma forma mais durável de existir, atravessando o tempo sem precisar ser ditas, sustentadas por um saber que não se explica, apenas se transmite.
Naquela casa, a Páscoa não chegava, não se anunciava como data ou acontecimento, mas se formava lentamente, como se fosse sendo tecida nos dias que a antecediam, fi o por fi o, gesto por gesto, até que algo se tornasse inteiro o sufi ciente para poder ser partilhado.\
Não se tratava de preparar uma refeição, mas de sustentar uma ordem delicada, construída entre aquilo que ainda se tinha e aquilo que já faltava, onde o possível e o necessário se encontravam em um ponto estreito, e era ali, nesse ajuste quase imperceptível, que algo se mantinha de pé.
A cozinha não era apenas um lugar da casa, mas um território onde o corpo sabia antes de qualquer palavra, onde as mãos reconheciam o tempo certo das coisas, o calor que não podia exceder, o ponto que não podia ser perdido, como se cada gesto carregasse em si a responsabilidade de não deixar que algo se desfizesse.
Os ovos eram escolhidos e preparados com um cuidado que não era apenas zelo, mas uma forma de vigília, como se sua integridade precisasse ser preservada porque ali não havia espaço para o que se quebra, e manter a casca intacta fosse também uma maneira de impedir que algo mais profundo se rompesse.
Ao redor deles, os outros alimentos encontravam seus lugares, não como uma reunião de coisas, mas como uma composição silenciosa, onde cada elemento se apoiava no outro, formando um conjunto que precisava permanecer coeso, como se ali se sustentasse mais do que alimento, como se se sustentasse um modo de continuar.
A cesta, montada devagar, era coberta com um gesto que não apenas protegia, mas resguardava, como se aquilo que estava ali ainda não pudesse ser tocado sem que algo se perdesse, permanecendo à espera de um tempo que não obedecia ao desejo, mas a uma ordem mais funda.
E então vinha a espera, que não era tranquila, mas atravessada por uma tensão contida, na qual o corpo, já convocado pelo cheiro e pela proximidade, precisava aprender a não ceder imediatamente, a sustentar o intervalo entre o querer e o fazer, como se nesse espaço se organizasse aquilo que daria sentido ao que viria depois.
Antes do alimento, havia a bênção, que não se apresentava como um adorno, mas como aquilo que autorizava a passagem, transformando o que estava ali de algo disponível em algo recebido, e é nessa passagem que o alimento se tornava outro sem deixar de ser o mesmo.
Comer, então, não era apenas satisfazer a fome, mas entrar em uma espécie de partilha que não se esgota no corpo, como se cada gesto carregasse uma memória que não pertence a quem a vive, mas a algo que se transmite através dele.
Durante muito tempo, tudo isso pareceu natural, como se fosse apenas o modo como a vida se organizava, mas havia ali uma sustentação invisível, um silêncio que não era vazio, mas cheio do que precisava ser contido para que não se rompesse, e o que doía permanecia, não dito, inscrito nos corpos, sustentado pela repetição.
Anos depois, em outra casa, o gesto retorna, não como lembrança clara, mas como algo que insiste, como se o corpo reencontrasse um caminho antigo sem precisar reconhecê-lo, repetindo movimentos que não foram ensinados, mas atravessados.
Tudo se organiza, tudo parece ocupar seu lugar, e ainda assim algo falta, como se o gesto, sozinho, não bastasse, como se aquilo que o sustentava não estivesse imediatamente disponível, e é nesse ponto que se abre uma pausa, um intervalo que se impõe, suspendendo o tempo entre o fazer e o oferecer.
É nesse intervalo que algo retorna, não como imagem, mas como ritmo, como uma forma de se organizar por dentro, e o corpo, sem saber nomear, reconhece.
Quando os fi lhos se aproximam, não há palavra que explique o que se passa, porque o que se transmite ali não pertence ao entendimento, mas à inscrição, e o gesto que se oferece, simples e anterior a tudo, organiza o que virá depois sem precisar ser compreendido.
A casa já não é a mesma, o tempo já não é o mesmo, mas algo continua atravessando, fazendo com que o que se partilha à mesa não seja apenas o alimento, mas a permanência de um gesto que não se rompeu.
Há coisas que não se quebram, não porque sejam fortes, mas porque foram sustentadas com cuidado ao longo do tempo, atravessadas pela falta sem se deixarem desfazer, mantidas por uma espécie de fi delidade silenciosa ao que não podia desaparecer.
E naquele instante, ao partir um ovo simples, algo se revela, não como pensamento, mas como evidência que se impõe sem precisar ser dita, de que nunca se tratou do que havia, mas daquilo que, mesmo quando tudo faltava, continuava existindo.

Maria Cristina R. Fernandes